Valter Casarin é coordenador geral e científico da NPV
Quando uma pessoa utiliza sua conta bancária, sabe que existe uma lógica simples: não é possível retirar dinheiro indefinidamente sem realizar depósitos. Se os saques forem maiores do que os recursos que entram na conta, o saldo diminui, surgem dificuldades financeiras e, em algum momento, o sistema entra em colapso. Com o solo ocorre exatamente o mesmo processo.
O solo funciona como um verdadeiro banco de nutrientes. Nele ficam armazenados elementos essenciais para o desenvolvimento das plantas, como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre. A cada safra agrícola, parte desses nutrientes é retirada do campo junto com os grãos, frutas, fibras e outros produtos colhidos. Quando não há reposição adequada, o “saldo” de fertilidade diminui gradativamente, comprometendo a capacidade produtiva do solo e tornando a agricultura cada vez menos sustentável.
Ao longo de milhares de anos, a natureza construiu lentamente os solos férteis que hoje sustentam a produção de alimentos. Entretanto, a agricultura moderna elevou significativamente a produtividade das lavouras e, consequentemente, aumentou também a retirada desses nutrientes. Em regiões agrícolas intensivas, toneladas de nutrientes deixam o campo todos os anos por meio das colheitas. É como se grandes saques fossem feitos continuamente em uma conta bancária sem que houvesse depósitos proporcionais.
O resultado desse desequilíbrio aparece na redução da fertilidade, na queda da produtividade das lavouras e na perda da qualidade do solo. Um solo empobrecido produz plantas menos vigorosas e mais suscetíveis a estresses climáticos, pragas e doenças. Além disso, compromete a qualidade nutricional dos alimentos produzidos.
Poucas pessoas percebem que a saúde humana começa, literalmente, no solo. Os nutrientes presentes nos alimentos tiveram origem na fertilidade do solo. Uma planta saudável absorve nutrientes de forma equilibrada e produz alimentos mais nutritivos. Esses nutrientes passam então para os animais e para os seres humanos, formando uma cadeia que conecta diretamente o solo à qualidade de vida da população. Dessa forma, solos saudáveis favorecem plantas saudáveis, que resultam em alimentos mais nutritivos e contribuem para uma população mais saudável.
Essa relação entre agricultura e nutrição humana torna-se ainda mais importante diante do desperdício de alimentos. Quando alimentos são descartados, não se perde apenas comida. Também são desperdiçados água, energia, combustível, trabalho humano e os nutrientes retirados do solo durante a produção agrícola. Cada grão de arroz, cada fruta ou pedaço de pão carrega consigo recursos naturais valiosos que demandaram tempo, energia e nutrientes do solo para serem produzidos. O desperdício aumenta a pressão sobre os sistemas agrícolas, pois exige a produção de volumes ainda maiores de alimentos para compensar aquilo que foi perdido.
A fertilidade do solo também está diretamente relacionada à preservação ambiental. Em muitas regiões do mundo, a queda da produtividade agrícola causada pelo empobrecimento dos solos leva à abertura de novas áreas de cultivo. Frequentemente, isso significa avançar sobre florestas e ecossistemas naturais. Por outro lado, quando os solos são manejados adequadamente, é possível produzir mais alimentos em uma mesma área agrícola, reduzindo a necessidade de expansão das fronteiras agrícolas.
Produzir mais na mesma área é um dos principais caminhos para reduzir o desmatamento. O aumento sustentável da produtividade agrícola permite preservar florestas, proteger a biodiversidade, reduzir emissões de carbono e utilizar os recursos naturais de maneira mais eficiente. Assim, investir na fertilidade do solo não beneficia apenas a agricultura, mas também contribui diretamente para a conservação ambiental.
Nesse contexto, os fertilizantes desempenham papel fundamental. Muitas vezes vistos apenas como um custo de produção, eles funcionam, na prática, como depósitos realizados na conta bancária do solo. Seu objetivo é devolver parte dos nutrientes removidos pelas colheitas, mantendo o equilíbrio necessário para a continuidade da produção agrícola. Quando utilizados de forma correta e equilibrada, os fertilizantes aumentam a produtividade, melhoram a eficiência do uso da terra e contribuem para sistemas agrícolas mais sustentáveis.
Sustentabilidade, portanto, não significa produzir menos, mas produzir melhor, com eficiência e responsabilidade. E isso começa pelo cuidado com o solo. Um solo fértil produz mais alimentos, utiliza melhor a água, reduz perdas por erosão, armazena carbono e melhora a qualidade nutricional das culturas agrícolas. Em outras palavras, cuidar do solo é investir simultaneamente na agricultura, na saúde humana e na preservação ambiental.
Retirar nutrientes sem repor é como gastar continuamente os recursos de uma conta bancária sem pensar no futuro. Durante algum tempo o sistema pode parecer funcionar, mas inevitavelmente chega o momento em que o saldo acaba. Com o solo não é diferente. Preservar sua fertilidade é garantir alimento, saúde e sustentabilidade para as próximas gerações.

*Valter Casarin, coordenador geral e científico da Nutrientes Para a Vida é graduado em Agronomia pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias/UNESP, Jaboticabal, em 1986 e em Engenharia Florestal pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”/USP, Piracicaba, em 1994. Concluiu o mestrado em Solos e Nutrição de Plantas, em 1994, na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. Recebeu o título de Doutor em Ciência do Solo pela École Supérieure Agronomique de Montpellier, França, em 1999. Atualmente é professor do Programa SolloAgro, ESALQ/USP e Sócio-Diretor da Fertilità Consultoria Agronômica.
Sobre a NPV
A NPV – Nutrientes para a Vida – nasceu com objetivo de melhorar a percepção da população urbana em relação às funções e os benefícios dos fertilizantes para a saúde humana. Braço da fundação norte-americana NFL – Nutrients For Life – no Brasil, a NPV trabalha baseada em informações científicas. A NPV tem sua sede no Brasil, é mantida pela ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos) e operada pela Biomarketing. A iniciativa conta ainda com parceiros como: Esalq/USP, IAC, UFMT, UFLA e UFPR.