Fertilizantes não são agrotóxicos: por que essa diferença precisa ser entendida?

Fertilizantes não são agrotóxicos: por que essa diferença precisa ser entendida?

Valter Casarin é coordenador geral e científico da NPV

Em tempos de debates intensos sobre agricultura e alimentação, dois termos aparecem frequentemente nas conversas públicas: fertilizantes e agrotóxicos. Para muitas pessoas fora do setor agrícola, esses insumos acabam sendo colocados no mesmo grupo, como se tivessem a mesma função ou representassem o mesmo tipo de risco. Essa confusão, porém, distorce a compreensão sobre como os alimentos são produzidos e sobre o papel de cada tecnologia no campo.

Fertilizantes e agrotóxicos são ferramentas distintas da agricultura moderna. Eles têm funções diferentes, composições diferentes e níveis de toxicidade muito diferentes. Entender essa distinção é fundamental para um debate mais equilibrado sobre produção de alimentos e sustentabilidade.

Fertilizantes são, essencialmente, fontes de nutrientes para as plantas. Assim como os seres humanos precisam de proteínas, vitaminas e minerais para crescer e se manter saudáveis, as plantas também necessitam de elementos essenciais para completar seu ciclo de vida. Entre os principais nutrientes estão o nitrogênio, o fósforo e o potássio, além de cálcio, magnésio, enxofre e diversos micronutrientes como zinco e boro.

Esses elementos participam de processos vitais da planta. O nitrogênio está ligado à formação de proteínas e à produção de clorofila, fundamental para a fotossíntese. O fósforo participa das reações de transferência de energia dentro das células vegetais. O potássio regula processos relacionados ao uso da água e à resistência da planta a estresses ambientais. Outros nutrientes fortalecem tecidos, ativam enzimas e garantem o funcionamento adequado do metabolismo vegetal.

Em outras palavras, fertilizantes alimentam as plantas. Sem eles, os solos cultivados ao longo de muitos anos acabam se tornando pobres em nutrientes, reduzindo drasticamente a produtividade das lavouras.

Os agrotóxicos, por outro lado, têm um objetivo completamente diferente. Eles são utilizados para controlar organismos que podem atacar as lavouras, como insetos, fungos, ácaros, nematoides ou plantas daninhas. Esses organismos competem com as culturas agrícolas ou causam doenças que podem destruir colheitas inteiras.

Por isso, os agrotóxicos são classificados de acordo com o alvo que controlam: inseticidas combatem insetos, fungicidas controlam fungos e herbicidas eliminam plantas daninhas. Diferentemente dos fertilizantes, esses produtos não nutrem as plantas; eles atuam na proteção da lavoura. Essa diferença de função também explica uma diferença importante em termos de toxicidade.

A maior parte dos fertilizantes é composta por nutrientes minerais que já existem naturalmente no solo e fazem parte do metabolismo de todos os seres vivos. Nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio e enxofre, por exemplo, são elementos presentes em organismos vegetais, animais e humanos. Evidentemente, os fertilizantes não são desenvolvidos, e tampouco usados, para matar organismos.

Já os agrotóxicos são substâncias biologicamente ativas, criadas justamente para controlar organismos que causam danos às plantas. Por essa razão, passam por processos rigorosos de avaliação antes de serem autorizados para uso. No Brasil, por exemplo, a liberação desses produtos envolve análises toxicológicas, ambientais e agronômicas realizadas por diferentes órgãos reguladores.

Outro aspecto frequentemente ignorado no debate público é o papel da nutrição vegetal na qualidade dos alimentos. A fertilidade do solo influencia diretamente características importantes da produção agrícola, desde o valor nutricional até a conservação dos alimentos após a colheita.

Plantas bem nutridas produzem frutos mais uniformes, com melhor aparência, maior firmeza e maior durabilidade. Em diversas culturas, a nutrição adequada também influencia características importantes para a indústria e para o consumidor, como o teor de proteína nos grãos, o teor de açúcar na cana-de-açúcar ou a qualidade de bebidas como o café. Além disso, a disponibilidade de certos nutrientes no solo pode influenciar a concentração de minerais importantes nos alimentos consumidos pela população, como ferro, zinco e cálcio.

Isso significa que fertilizantes não apenas contribuem para produzir mais alimentos, mas também para produzir alimentos com melhor qualidade. É claro que toda tecnologia agrícola deve ser usada com responsabilidade e dentro de boas práticas agronômicas. Mas misturar conceitos distintos não ajuda a sociedade a compreender os desafios da produção de alimentos. Ao contrário, aumenta a desinformação.

Fertilizantes e agrotóxicos fazem parte de estratégias diferentes dentro do sistema agrícola. Um está relacionado à nutrição das plantas e à reposição de nutrientes no solo. O outro está ligado à proteção das lavouras contra organismos que causam prejuízos à produção.

Reconhecer essa diferença é um passo importante para que o debate sobre agricultura seja conduzido com base em informação, e não em confusão de conceitos. Afinal, entender como os alimentos são produzidos é também uma forma de valorizar o conhecimento científico que sustenta a segurança alimentar da sociedade.

 

*Valter Casarin, coordenador geral e científico da Nutrientes Para a Vida é graduado em Agronomia pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias/UNESP, Jaboticabal, em 1986 e em Engenharia Florestal pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”/USP, Piracicaba, em 1994. Concluiu o mestrado em Solos e Nutrição de Plantas, em 1994, na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. Recebeu o título de Doutor em Ciência do Solo pela École Supérieure Agronomique de Montpellier, França, em 1999. Atualmente é professor do Programa SolloAgro, ESALQ/USP e Sócio-Diretor da Fertilità Consultoria Agronômica.

 

Sobre a NPV 

A NPV – Nutrientes para a Vida – nasceu com objetivo de melhorar a percepção da população urbana em relação às funções e os benefícios dos fertilizantes para a saúde humana. Braço da fundação norte-americana NFL – Nutrients For Life – no Brasil, a NPV trabalha baseada em informações científicas. A NPV tem sua sede no Brasil, é mantida pela ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos) e operada pela Biomarketing. A iniciativa conta ainda com parceiros como: Esalq/USP, IAC, UFMT, UFLA e UFPR.

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