Sustentabilidade: como fertilizantes ajudam a evitar desmatamento

Sustentabilidade na prática: como os fertilizantes ajudam a evitar o desmatamento

Valter Casarin é coordenador geral e científico da NPV

É muito comum associar os fertilizantes como insumo para aumentar a produtividade agrícola. Eles representam a forma mais rápida e prática de devolver os nutrientes retirados do solo pelas culturas. No entanto, na prática, eles têm uma função que vai além dessas simples ações. Os fertilizantes ajudam a preservar florestas, reduzir a pressão por abertura de novas áreas e tornar a produção de alimentos mais sustentável.

É de conhecimento que população está crescendo de forma significativa, consequentemente, o consumo de alimentos aumenta e o campo precisa produzir mais. Existem duas maneiras de aumentar a produção de alimentos: expandindo a agricultura sobre áreas naturais ou aumentando a produtividade nas áreas já cultivadas. É nesse ponto que os fertilizantes se tornam aliados da sustentabilidade.

O solo funciona como uma espécie de “banco” de nutrientes. Cada safra retira grandes quantidades de nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre e micronutrientes. Quando esses nutrientes não são repostos, a fertilidade diminui, a produtividade cai e a área produz menos alimento. Para compensar essa perda, muitas vezes surge a pressão para abrir novas áreas agrícolas.

Os fertilizantes permitem justamente o contrário, produzir mais na mesma área. Em vez de expandir fronteiras agrícolas, o agricultor consegue aumentar a eficiência da terra já cultivada. Isso significa maior produção por hectare e menor necessidade de conversão de florestas, cerrados e outras áreas naturais.

O Brasil é um exemplo claro dessa transformação. Nas últimas décadas, a produtividade de culturas como soja, milho, cana-de-açúcar e algodão cresceu fortemente graças ao avanço da ciência do solo, do manejo e da nutrição de plantas. Sem fertilizantes, seria impossível atingir os atuais níveis de produção em grande parte dos solos tropicais brasileiros, naturalmente pobres em nutrientes.

Os dados históricos da agricultura brasileira mostram uma relação importante entre aumento da produtividade, uso de fertilizantes e redução relativa da necessidade de expansão agrícola.

Segundo a Embrapa, a produção brasileira de grãos saltou de cerca de 38 milhões de toneladas em 1975 para aproximadamente 236 milhões de toneladas em 2017. No mesmo período, a área plantada apenas dobrou. Isso significa que a produção cresceu muito mais rapidamente do que a expansão territorial da agricultura.

Mais recentemente, dados da Conab indicam produções próximas de 300 milhões de toneladas de grãos nas últimas safras, com área cultivada em torno de 78 milhões de hectares. Os fertilizantes tiveram papel central nesse processo porque grande parte dos solos brasileiros apresenta baixa fertilidade natural, especialmente nos Cerrados. Sem a correção e reposição de nutrientes, seria impossível sustentar produtividades elevadas por muitos anos consecutivos.

A evolução do consumo de fertilizantes acompanhou o avanço da produção agrícola. O Brasil tornou-se um dos maiores consumidores mundiais desses insumos, justamente porque intensificou a produção por hectare. Estudos sobre o setor mostram que o aumento da produtividade foi proporcionalmente muito maior do que o crescimento da área cultivada.
A interpretação mais importante desses números é a seguinte: se a produtividade agrícola brasileira tivesse permanecido nos níveis das décadas de 1970 e 1980, o país precisaria de uma área muito maior para produzir o volume atual de alimentos, fibras e bioenergia. Em outras palavras, parte significativa da preservação ambiental obtida nas últimas décadas está associada ao aumento de produtividade das áreas já abertas.

Outro ponto importante é a relação com o carbono. Culturas agrícolas altamente produtivas capturam grandes volumes de CO₂ durante seu ciclo. Quanto maior a produtividade, maior a produção de biomassa e maior a fixação biológica de carbono. Fertilizantes contribuem diretamente para esse processo porque plantas bem nutridas apresentam maior atividade fotossintética e maior crescimento.

As florestas continuam insubstituíveis como reservatórios permanentes de carbono e biodiversidade. Entretanto, sistemas agrícolas intensivos e tecnificados ajudam a evitar novas conversões de áreas naturais ao permitir maior produção em áreas já cultivadas.

Assim, a experiência brasileira sugere que sustentabilidade agrícola depende menos da simples redução da produção e mais do aumento contínuo da eficiência produtiva. Nesse contexto, fertilizantes, ciência agronômica e manejo adequado do solo tornam-se componentes importantes de uma agricultura de menor pressão territorial.

Além disso, a adubação equilibrada melhora o aproveitamento da água, fortalece as plantas contra estresses climáticos e aumenta a eficiência do uso da terra. Uma planta bem nutrida produz mais biomassa, mais grãos e mais alimento usando a mesma área cultivada.

A sustentabilidade moderna não significa produzir menos. Significa produzir melhor, com mais eficiência e menor impacto ambiental. Nesse contexto, fertilizantes não são inimigos do meio ambiente. Pelo contrário: quando utilizados de forma correta, baseada em análise de solo, recomendação técnica e boas práticas agronômicas, eles fazem parte da solução.
O desafio global não é escolher entre agricultura e conservação ambiental. O verdadeiro desafio é unir as duas coisas. E isso passa diretamente pela capacidade de aumentar a produtividade agrícola sem ampliar o desmatamento.

Em outras palavras, cada hectare que produz mais alimento de forma eficiente ajuda a preservar outros hectares de vegetação nativa. Essa é a sustentabilidade na prática.

*Valter Casarin, coordenador geral e científico da Nutrientes Para a Vida é graduado em Agronomia pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias/UNESP, Jaboticabal, em 1986 e em Engenharia Florestal pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”/USP, Piracicaba, em 1994. Concluiu o mestrado em Solos e Nutrição de Plantas, em 1994, na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. Recebeu o título de Doutor em Ciência do Solo pela École Supérieure Agronomique de Montpellier, França, em 1999. Atualmente é professor do Programa SolloAgro, ESALQ/USP e Sócio-Diretor da Fertilità Consultoria Agronômica.

 

Sobre a NPV 

A NPV – Nutrientes para a Vida – nasceu com objetivo de melhorar a percepção da população urbana em relação às funções e os benefícios dos fertilizantes para a saúde humana. Braço da fundação norte-americana NFL – Nutrients For Life – no Brasil, a NPV trabalha baseada em informações científicas. A NPV tem sua sede no Brasil, é mantida pela ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos) e operada pela Biomarketing. A iniciativa conta ainda com parceiros como: Esalq/USP, IAC, UFMT, UFLA e UFPR.

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